Nações Unidas, 23 jun (EFE).- O Conselho de Segurança da ONU condenou hoje a violenta campanha contra a oposição ao Governo do Zimbábue e assegurou que isto torna impossível que as eleições presidenciais de 27 de junho sejam "livres e justas".
O texto estipulado pelos 15 membros do principal órgão das Nações Unidas após intensas negociações pede que Harare dialogue para obter a formação de um Governo "legítimo", mas sem exigir o adiamento do pleito, como queriam países ocidentais.
"O Conselho de Segurança, além disso, condena as ações do Governo do Zimbábue com as quais foi negado aos opositores políticos o direito de fazer campanha em liberdade", e pede ao regime de Robert Mugabe "para interromper a violência".
O texto também pede ao Governo zimbabuano para rever a decisão de proibir temporariamente as operações das organizações humanitárias, o que, segundo a ONU, colocou em risco mais de 1,5 milhão de pessoas que dependem desta assistência, devido à grave situação econômica do país.
A declaração adverte de que qualquer futuro Governo em Harare "deve respeitar os interesses de todos os cidadãos" para ser legítimo e exige que sejam respeitados os resultados do primeiro turno, realizado em 29 de março, no qual venceu a oposição.
O vencedor na ocasião, o líder opositor Morgan Tsvangirai, se refugiou hoje na embaixada holandesa em Harare, após anunciar, no domingo, que retirava sua candidatura por causa da violência sofrida por seguidores do partido por parte do Governo de Mugabe.
Em discurso no Conselho de Segurança, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Políticos, Lynn Pascoe, afirmou que este fato leva a crise política zimbabuana a "um nível alarmante", após os assassinatos, agressões e restrições sofridos pela oposição.
"As condições para eleições livres e justas não existem e é nossa opinião que se deve adiar sua realização", acrescentou.
A retirada de Tsvangirai provocou uma onda de reações de protesto, particularmente nas capitais ocidentais, que pediram que se aumente a pressão sobre o Governo de Mugabe.
Fontes diplomáticas disseram que foi a gravidade da situação que permitiu, pela primeira vez, superar a recusa da África do Sul a levar ao Conselho de Segurança o tema do Zimbábue, apesar do drama humanitário e político que o país vizinho vive nos últimos anos.
"Estamos muito agradecidos a nossos colegas, particularmente os representantes da África, por ter podido enviar uma mensagem clara", afirmou o embaixador dos Estados Unidos perante a ONU, Zalmay Khalilzad, na saída da reunião do Conselho, que durou quase cinco horas.
Pretória, que ocupa um dos dois assentos da África no órgão, afirma que a crise zimbabuana é um assunto interno que não diz respeito ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.
De fato, conseguiu que se eliminasse do texto um parágrafo que reconhecia Tsvangirai como vencedor das eleições por ter ganhado o primeiro turno e também uma menção direta à necessidade de adiar a segunda rodada do pleito.
O embaixador da África do Sul perante a ONU, Dumisani Kumalo, ressaltou que o texto também apóia a mediação do presidente sul-africano, Thabo Mbeki.
"Tudo o que queremos é ajudar, com nossa mediação, os zimbabuanos para que resolvam seus problemas", destacou.
Por sua parte, o embaixador do Zimbábue perante a ONU, Boniface Chidyausiku, rejeitou que a declaração do Conselho tenha qualquer efeito no calendário eleitoral do país.
"Reconhecemos a preocupação, mas no que diz respeito às eleições, essas seguem em frente", acrescentou.
Esta não é a reação de Harare esperada pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que hoje ameaçou as autoridades zimbabuanos a adiar a eleição.
O maior responsável da ONU desaconselhou com firmeza Harare seguir em frente com o segundo turno, ao considerar que "somente faria aprofundar a divisão no país e produzir resultados sem credibilidade".
Em um encontro com a imprensa anterior da reunião do Conselho, Ban exigiu o fim "da violência e da intimidação", porque "o povo zimbabuano tem o direito de viver em paz e em segurança".