Segundo especialista, libertados após poucos meses apresentam mais sintomas.
Psicóloga colombiana Dary Nieto já atendeu centenas de vítimas de seqüestros.
O fato de terem sido mantidos muitos anos em cativeiro pode ser o motivo pelo qual Ingrid Betancourt e os outros reféns libertados na quarta-feira (2) na Colômbia estão em aparente bom estado emocional, explica a psicóloga colombiana Dary Nieto, em entrevista telefônica concedida de Bogotá ao G1.
Ela trabalha desde 2000 na Fundação País Livre, atendendo a cerca de 250 vítimas de seqüestro ao ano. Já teve casos de pessoas que ficaram seis anos seqüestradas, como Ingrid, e garante que quem esteve refém por vários anos sai do cativeiro em melhor estado do que quem só esteve preso por alguns meses.
“Os liberados nos primeiros quatro ou cinco meses tem mais sintomas (psicológicos)", afirma. "A aceitação do seqüestro tem várias etapas. Depois de muito tempo, a pessoa vai aceitando e se acostumando fisica e psicologicamente à nova situação. Ele perde peso e cria resistência emocional, cria uma fortaleza interna.”
A fase inicial é mais complicada. “Até quatro e cinco meses, as pessoas seqüestradas sentem muita raiva. Após vários anos, elas ultrapassam essa fase, reavaliam a noção de cotidiano. É como se já estivessem em outra dimensão. É uma fortaleza muito linda”, observa, ressaltando que o grau de espiritualidade e intelectualidade do refém é determinante no processo de aceitação do cativeiro."
Dary aponta, por outro lado, que o processo de autoproteção pode dificultar a readaptação à vida normal depois da libertação. “Em alguns casos, a fortaleza individual que constróem faz com que eles desconheçam seu entorno."
Reféns libertados após muitos anos, que são comuns na Colômbia, podem apresentar dificuldade para se reinserir no núcleo familiar e para restabelecer relação com esposas, maridos e filhos.
“Nestes casos, houve uma ausência total de tudo que é uma parceria, uma vida em casal”, observa Dary. “Também as crianças, ao mesmo tempo em que esperavam ansiosamente pela volta dos pais, podem ter dificuldade em aceitar que devem novamente levar sua autoridade em consideração.” Ela explica que há casos em que não há problema algum de readaptação, mas que o apoio terapêutico sempre é recomendável.
A psicóloga atende a vítimas de seqüestro de todos tipos, políticos ou puramente extorsivos, que são o tipo mais comum no país. Graças ao contato com pacientes que estiveram nas mãos das Farc, ela sabe exatamente como os reféns da guerrilha são tratados.
“Varia muito a forma como esses grupos tratam os seqüestrados. No caso das Farc, eles ficam em acampamentos. A maioria fica na selva, sob as intempéries, com roupas úmidas, sem visão direta do sol, o que os enfraquece muito”, conta. “Somente em alguns momentos tem comida ‘boa’, ou seja, com alguma proteína, por exemplo. Geralmente eles só comem massa e lentilhas ou, se é numa região mais quente, mandioca”.
Apesar de sofreram maus tratos, segundo Dary, os ex-reféns das Farc, num primeiro momento, geralmente sentem pena dos seqüestradores. “Há o sentimento de lástima em relação aos seqüestradores, que muitas vezes são pessoas de 14 a 16 anos. Sentem pena de que aquelas pessoas levem esta vida”, conta. “Depois há uma etapa em que fazem um balanço de tudo que passaram e sentem raiva. Mas há outros que sentem agradecimento por alguns seqüestradores. Há momentos em que um copo d’água, um remédio que algum seqüestrador possa ter arranjado vale muita coisa”, conclui.
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