sexta-feira, 4 de julho de 2008

Seqüestro longo pode explicar bom estado de Betancourt, diz psicóloga

Segundo especialista, libertados após poucos meses apresentam mais sintomas.
Psicóloga colombiana Dary Nieto já atendeu centenas de vítimas de seqüestros.

O fato de terem sido mantidos muitos anos em cativeiro pode ser o motivo pelo qual Ingrid Betancourt e os outros reféns libertados na quarta-feira (2) na Colômbia estão em aparente bom estado emocional, explica a psicóloga colombiana Dary Nieto, em entrevista telefônica concedida de Bogotá ao G1.

Ela trabalha desde 2000 na Fundação País Livre, atendendo a cerca de 250 vítimas de seqüestro ao ano. Já teve casos de pessoas que ficaram seis anos seqüestradas, como Ingrid, e garante que quem esteve refém por vários anos sai do cativeiro em melhor estado do que quem só esteve preso por alguns meses.


Sintomas

“Os liberados nos primeiros quatro ou cinco meses tem mais sintomas (psicológicos)", afirma. "A aceitação do seqüestro tem várias etapas. Depois de muito tempo, a pessoa vai aceitando e se acostumando fisica e psicologicamente à nova situação. Ele perde peso e cria resistência emocional, cria uma fortaleza interna.”

A fase inicial é mais complicada. “Até quatro e cinco meses, as pessoas seqüestradas sentem muita raiva. Após vários anos, elas ultrapassam essa fase, reavaliam a noção de cotidiano. É como se já estivessem em outra dimensão. É uma fortaleza muito linda”, observa, ressaltando que o grau de espiritualidade e intelectualidade do refém é determinante no processo de aceitação do cativeiro."

Readaptação

Dary aponta, por outro lado, que o processo de autoproteção pode dificultar a readaptação à vida normal depois da libertação. “Em alguns casos, a fortaleza individual que constróem faz com que eles desconheçam seu entorno."

Reféns libertados após muitos anos, que são comuns na Colômbia, podem apresentar dificuldade para se reinserir no núcleo familiar e para restabelecer relação com esposas, maridos e filhos.

“Nestes casos, houve uma ausência total de tudo que é uma parceria, uma vida em casal”, observa Dary. “Também as crianças, ao mesmo tempo em que esperavam ansiosamente pela volta dos pais, podem ter dificuldade em aceitar que devem novamente levar sua autoridade em consideração.” Ela explica que há casos em que não há problema algum de readaptação, mas que o apoio terapêutico sempre é recomendável.

Acampamentos das Farc

A psicóloga atende a vítimas de seqüestro de todos tipos, políticos ou puramente extorsivos, que são o tipo mais comum no país. Graças ao contato com pacientes que estiveram nas mãos das Farc, ela sabe exatamente como os reféns da guerrilha são tratados.

“Varia muito a forma como esses grupos tratam os seqüestrados. No caso das Farc, eles ficam em acampamentos. A maioria fica na selva, sob as intempéries, com roupas úmidas, sem visão direta do sol, o que os enfraquece muito”, conta. “Somente em alguns momentos tem comida ‘boa’, ou seja, com alguma proteína, por exemplo. Geralmente eles só comem massa e lentilhas ou, se é numa região mais quente, mandioca”.

Apesar de sofreram maus tratos, segundo Dary, os ex-reféns das Farc, num primeiro momento, geralmente sentem pena dos seqüestradores. “Há o sentimento de lástima em relação aos seqüestradores, que muitas vezes são pessoas de 14 a 16 anos. Sentem pena de que aquelas pessoas levem esta vida”, conta. “Depois há uma etapa em que fazem um balanço de tudo que passaram e sentem raiva. Mas há outros que sentem agradecimento por alguns seqüestradores. Há momentos em que um copo d’água, um remédio que algum seqüestrador possa ter arranjado vale muita coisa”, conclui.

Dois dias depois de resgatada das Farc, Ingrid Betancourt chega a Paris

Antes de chegar, ex-refém da guerrilha disse que devia sua vida à França.
Em praça da capital, ela simbolicamente retirou cartaz com sua foto como refém.

A ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) Ingrid Betancourt e seus familiares chegaram nesta sexta-feira (4) a Paris, dois dias depois de ela ter sido libertada da guerrilha na selva colombiana.

Ingrid, que é franco-colombiana, foi recebida pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e pela primeira-dama, Carla Bruni, no aeroporto de Villacoublay, no subúrbio de Paris.

Logo depois de desembarcar, Ingrid disse que "chorou muito" durante seu cativeiro de mais de seis anos, mas que, agora, "chorava de alegria" na chegada ao país. Ela disse também que iria se lembrar do momento por "muito e muito tempo".

Sarkozy afirmou que "toda a França está feliz" pela chegada de Ingrid ao país.

Viajaram com a ex-refém desde Bogotá seus filhos, Mélanie e Lorenzo, sua irmã, Astrid, sua mãe, Yolanda Pulecio, e seu ex-marido, Fabrice Delloye. O chanceler francês, Bernard Kouchner, também estava no avião.

Durante a viagem, a ex-candidata presidencial colombiana disse a jornalistas que "devia sua vida" à França. "Se a França não tivesse lutado por mim, eu não estaria fazendo esta viagem extraordinária", disse, quase na chegada a Paris.
Sorridente, vestida de tailleur claro, Ingrid revelou que conseguiu dormir no Airbus presidencial, mesmo depois do "turbilhão" da véspera, quando reencontrou seus filhos após mais de seis anos de cativeiro.
"A França foi meu apoio não somente do ponto de vista moral como também por seu peso, por ter recusado qualquer operação militar e impedido o governo colombiano de lançar operações militares para libertar reféns pela força", disse.


Ela citou o caso de um de seus companheiros de cativeiro que fugiu, mas foi pego e fuzilado. "Se a França não estivesse por trás, provavelmente eu teria tido o mesmo destino", afirmou.


Ela reiterou seu desejo de encontrar o papa. "Irei ao Vaticano assim que me disserem que poderei abraçar o papa". A idéia de tocar o Papa, é de estar um pouquinho mais perto de Deus, é uma maneira de dizer 'obrigada'".

Ela voltou a ser evasiva sobre a possibilidade de voltar à política. "Por enquanto, eu me vejo longe dela. Mas continuo tendo vontade de servir os colombianos", disse.

No Eliseu

Ingrid pediu a Sarkozy e aos comitês mobilizados para conseguir sua liberdade que continuem lutando pelos reféns em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na selva colombiana.

Foto: Benoît Tessier/Reuters

"Ali, deixei seres humanos que permanecem nas mãos das Farc. Portanto, continuo precisando de vocês", disse. "Necessito contar com o presidente Sarkozy para que retorne à Colômbia".


Betancourt disse que Sarkozy deverá voltar a falar com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, e pediu aos representantes franceses que intercedessem por ela perante as Farc voltando à selva.

Sarkozy respondeu dizendo que irá à América do Sul para agradecer aos governantes de Colômbia, Venezuela, Equador e Argentina pela libertação de Ingrid e "falar do futuro".

Ela explicou que a situação é particularmente ruim desde que as Farc se negaram a falar com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa, e "ainda menos" com Uribe.

Cartaz

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, e milhares de pessoas comemoraram o resgate de Ingrid na prefeitura, diante de um cartaz da ex-candidata sobre o qual foi colocado um letreiro com a palavra "livre".

Sob aplausos, Ingrid retirou o cartaz, num ato simbólico. (assista ao vídeo ao lado)

Acorrentada

Antes de embarcar para a França, ela contou em uma entrevista que permaneceu acorrentada 24 horas por dia durante três anos, e que em alguns momentos era submetida a maus-tratos, mas que apesar de tudo tentou "viver com dignidade".

"Tentava carregar as correntes e viver com dignidade, mas às vezes me dava conta de que era insuportável", disse Betancourt em entrevista para a emissora de rádio francesa Europe 1, pouco antes de deixar a Colômbia com destino à França.

"Senti que existe a tentação de se abandonar a comportamentos demoníacos (...); acredito que é preciso conservar uma grande espiritualidade para não cair no abismo", disse a ex-refém. "Usei algemas o tempo todo, as 24 horas do dia, durante três anos", acrescentou.

Questionada sobre as humilhações às quais foi submetida, respondeu que "havia momentos de maus-tratos", e disse que o tratamento que recebia dos guerrilheiros "era variável" e que "sabia que em qualquer momento esse lado cruel podia surgir".

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Refém das Farc por mais de 6 anos, Ingrid Betancourt é resgatada

Ex-candidata à presidência da Colômbia foi solta com mais 14 reféns, diz governo.
Segundo ministro, guerrilheiros foram enganados por militares infiltrados no grupo.

A franco-colombiana Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência da Colômbia e refém das Farc há mais de seis anos, foi resgatada nesta quarta-feira (2).

Ela foi libertada junto com três norte-americanos e mais outros 11 militares colombianos, segundo o ministro colombiano da Defesa, Juan Manuel Santos. O anúncio da libertação foi confirmado logo depois pelo governo francês, que participava de negociações anteriores.

Os norte-americanos libertados são Thomas Howes, Keith Stansell e Marc Gonsalves, seqüestrados em 2003 quando realizavam uma missão antidrogas na floresta de Caquetá, no sudeste do país.

De acordo com o ministro, todos estão em boas condições de saúde e nenhum tiro foi disparado durante o resgate, que foi feito com a ajuda de três helicópteros.

"Seguimos trabalhando na libertação dos demais seqüestrados. Apelamos para os atuais líderes da Farc para que não se deixem matar, liberem os outros seqüestrados e não sacrifiquem seus homens", disse o ministro em Bogotá.

Foto: Arte/G1

Os resgatados já teriam chegado na base militar de Toleimada, no centro do país. Lá, eles seriam recebidos pelo presidente da Colômbia, Alvaro Uribe.

Infiltrados

Segundo o ministro colombiano da Defesa, o Exército da Colômbia se infiltrou na cúpula das Farc para libertar os quinze seqüestrados, enganando dois rebeldes e fazendo com que eles acreditassem que iam a um encontro com o chefe máximo rebelde, Alfonso Cano.

Ele disse que os militares infiltrados haviam feito um acordo com o comandante César, das Farc, para supostamente levar os cativos de helicóptero até o lugar onde estaria Cano, chefe da guerrilha desde maio passado, quando morreu Manuel Marulanda, o Tirofijo, fundador do grupo.

Lorenzo Betancourt, filho de Ingrid, disse que espera "de todo coração" que seja verdadeira a notícia da libertação. "Estou aguardando mais informações. Espero que seja verdade, de todo coração", disse à agência EFE.

Ingrid Betancourt nasceu em Bogotá, estudou em Paris e hoje tem 46 anos - dos quais os últimos seis passou no meio da mata, vivendo em condições precárias como refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

A parlamentar havia sido seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002 na região de Caquetá e, hoje, acredita-se que esteja com malária, leishmaniose e hepatite B.

Betancourt é uma das mais importantes reféns que as Farc mantinham em cativeiro - faz parte do grupo de 40 prisioneiros políticos passíveis de troca por guerrilheiros presos pelo governo colombiano. Além disso, há centenas de outras pessoas seqüestradas pela guerrilha por motivos financeiros.

O resgate é um trunfo político na mão do presidente Uribe, que endureceu contra a guerrilha e aliou-se com os EUA, que investiram bilhões de dólares para colocar os rebeldes na defensiva, combater a criminalidade e investir no desenvolvimento do país.